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O coração bate cerca de 100 mil vezes por dia. Na grande maioria dessas batidas, você não percebe nada. Mas às vezes, em um momento inesperado — sentado, dormindo, ou no meio de uma reunião — o coração parece dar um "solavanco". Pula uma batida. Acelera sem motivo. Ou bate de forma irregular por alguns segundos.
Essa sensação tem nome: arritmia cardíaca. E é muito mais comum do que a maioria das pessoas imagina.
Estima-se que mais de 20 milhões de brasileiros convivam com algum tipo de arritmia cardíaca, segundo a SOBRAC (Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas). Algumas dessas arritmias são completamente benignas e não exigem tratamento. Outras são emergências que requerem atenção imediata.
O problema é que a maioria das pessoas não sabe distinguir uma da outra. E essa incerteza gera duas reações igualmente problemáticas: ignorar completamente (o que pode ser perigoso) ou entrar em pânico a cada palpitação (o que gera ansiedade sem necessidade).
Este artigo vai te dar o que você precisa para entender o que está acontecendo com o seu coração — com clareza, sem alarmismo.
Aviso: Este conteúdo tem fins educativos e é baseado em diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e da SOBRAC. Qualquer sintoma cardíaco persistente ou súbito exige avaliação médica. Não use este artigo para se autodiagnosticar.
O coração funciona como uma bomba elétrica. Cada batimento é iniciado por um impulso elétrico gerado em uma estrutura chamada nó sinusal — localizada no átrio direito — que se propaga por um sistema de condução específico até fazer o músculo cardíaco se contrair de forma coordenada.
Em condições normais, um adulto em repouso tem entre 60 e 100 batimentos por minuto (bpm), em ritmo regular. Esse é o chamado ritmo sinusal normal.
Arritmia cardíaca é o nome dado a qualquer alteração nesse padrão: o coração pode bater rápido demais, lento demais, de forma irregular, ou a sequência de contração das câmaras pode estar desorganizada. Em todos esses casos, a eficiência da bomba cardíaca pode ser comprometida — em menor ou maior grau.
Para entender as arritmias, ajuda imaginar o coração dividido em duas partes:
O impulso elétrico percorre esse caminho em milissegundos. Qualquer interrupção, desvio ou aceleração nesse trajeto pode gerar uma arritmia.
Aqui está um ponto fundamental que muita gente não sabe: "arritmia" não é um diagnóstico único. É um termo que abrange dezenas de condições com gravidades completamente diferentes.
Extrassístoles (batimentos extras) As extrassístoles são provavelmente a arritmia mais comum que existe. Ocorrem quando uma célula fora do nó sinusal dispara um impulso antes do esperado, causando aquela sensação de "coração pulando uma batida" ou "solavanco no peito".
São extremamente comuns — praticamente todo adulto as tem ocasionalmente — e na ausência de doença cardíaca estrutural são consideradas benignas. O estresse, a cafeína, a falta de sono e o álcool são gatilhos frequentes.
Taquicardia sinusal O coração acelera acima de 100 bpm mantendo o ritmo regular. Pode ser causada por ansiedade, exercício físico, febre, anemia, desidratação ou hipertireoidismo. Na maioria dos casos, é uma resposta fisiológica normal — não é uma arritmia primária do coração.
Bradicardia sinusal Frequência abaixo de 60 bpm em ritmo regular. Em atletas condicionados é completamente normal (o coração treinado é mais eficiente e precisa bater menos vezes). Preocupa apenas quando causa sintomas como tonturas, desmaios ou cansaço extremo.
Fibrilação Atrial (FA) A fibrilação atrial é a arritmia mais incidente e sua frequência tem aumentado, já que uma proporção maior de pessoas acima dos 60 anos tem se tornado uma tendência mundial.
Na FA, os átrios tremem de forma caótica — entre 350 e 600 impulsos por minuto — em vez de se contrair de forma organizada. Os ventrículos respondem a esses impulsos de forma irregular, causando o ritmo cardíaco irregular característico.
A fibrilação atrial já afeta 2,5% da população mundial — cerca de 175 milhões de pessoas. No Brasil, estima-se que cerca de 2 milhões de pessoas sejam afetadas. E o risco aumenta exponencialmente com a idade: estima-se que até 10% das pessoas acima de 75 anos possuam a doença.
O grande perigo da FA não é o ritmo irregular em si — é o risco de formação de coágulos nos átrios que podem se desprender e causar AVC isquêmico. Por isso o tratamento inclui anticoagulantes na maioria dos casos.
Taquicardia Supraventricular Paroxística (TSVP) Episódios de coração acelerado (geralmente entre 150–250 bpm) de início e fim súbitos. O paciente sente o coração "disparar" de repente, frequentemente com sensação de pulsação no pescoço. Assusta muito, mas raramente coloca a vida em risco em pessoas sem doença cardíaca estrutural. É tratável com medicamentos ou ablação por cateter.
Bloqueio Atrioventricular (BAV) Ocorre quando o impulso elétrico tem dificuldade de passar dos átrios para os ventrículos. O bloqueio de primeiro grau é geralmente benigno. O de segundo grau exige investigação. O de terceiro grau (bloqueio total) pode ser grave e requer marca-passo.
Flutter Atrial Semelhante à fibrilação atrial, mas os átrios se contraem de forma mais organizada — geralmente em torno de 300 bpm. Também gera risco de AVC e geralmente exige tratamento.
Taquicardia Ventricular (TV) O ventrículo dispara a 100–250 bpm de forma independente. Pode causar redução grave do débito cardíaco. Se sustentada, pode evoluir para fibrilação ventricular. Em pessoas com doença coronariana prévia, representa risco de vida.
Fibrilação Ventricular (FV) A arritmia mais grave que existe. Os ventrículos tremem caoticamente — sem contração efetiva. O coração para de bombear sangue em segundos. É a principal causa de morte súbita cardíaca e requer desfibrilação imediata.
Do total de mortes súbitas por problemas cardiovasculares, estima-se que 80 a 90% sejam provenientes de algum tipo de arritmia cardíaca. No Brasil, ocorrem mais de 320 mil mortes súbitas por ano em decorrência de arritmias cardíacas — uma a cada 2 minutos.
Os sintomas das arritmias variam enormemente conforme o tipo, a frequência e a duração do episódio — e conforme a presença ou ausência de doença cardíaca associada.
Use este checklist para avaliar se seus sintomas merecem investigação:
As arritmias podem ter causas cardíacas primárias ou ser manifestação de outras condições:
O ECG é o exame básico e fundamental. Em 10 segundos, registra a atividade elétrica do coração e pode identificar arritmias presentes no momento do exame, além de sinais de infarto prévio, bloqueios e hipertrofia.
Limitação: só captura o que está acontecendo naquele momento. Arritmias paroxísticas (que vêm e vão) podem não aparecer.
O paciente usa eletrodos por 24 a 48 horas enquanto faz sua rotina normal. O aparelho registra cada batimento — geralmente de 80.000 a 120.000 batimentos por sessão. É o exame ideal para arritmias que ocorrem esporadicamente ao longo do dia.
Para pacientes com sintomas muito esporádicos — uma vez por semana ou menos — o monitor de eventos pode ser usado por semanas a meses. Alguns são implantáveis sob a pele (Holter implantável) e podem monitorar por até 3 anos.
Avalia a estrutura e a função do coração. Identifica doença valvar, disfunção ventricular, cardiomiopatias e outras causas cardíacas de arritmia. Essencial antes de decidir o tratamento.
Avalia o comportamento do coração durante o esforço. Identificar arritmias desencadeadas pelo exercício e avaliar a resposta da frequência cardíaca é um dos seus objetivos.
Exame invasivo realizado por eletrofisiologista. Cateteres são introduzidos pelas veias e posicionados dentro do coração para mapear o sistema elétrico com precisão. Geralmente realizado quando se planeja ablação por cateter.
O tratamento depende do tipo de arritmia, da frequência, da gravidade e da presença de doença cardíaca associada.
Nos casos mais leves — extrassístoles ocasionais sem doença cardíaca, taquicardia sinusal com causa identificada — pode não haver a necessidade de nenhum tipo de intervenção ou medicamentos. O controle dos gatilhos (cafeína, estresse, privação de sono) já resolve.
Utilizados para controlar a frequência e o ritmo cardíaco. Os principais grupos incluem betabloqueadores (reduzem a frequência cardíaca), bloqueadores dos canais de cálcio (para FA e TSVP), antiarrítmicos da classe IC e III (para arritmias mais complexas) e anticoagulantes (para FA, prevenindo AVC).
A escolha do medicamento é altamente individualizada — o que funciona para um tipo de arritmia pode ser prejudicial em outro.
A ablação por cateter é um procedimento minimamente invasivo em que o eletrofisiologista introduz cateteres pelas veias femorais até o coração e aplica energia (geralmente radiofrequência ou crioenergia) para destruir o foco da arritmia ou interromper o circuito elétrico que a sustenta.
É o tratamento curativo de escolha para TSVP (taxa de cura acima de 95%), flutter atrial e fibrilação atrial em casos selecionados. Procedimento seguro, com taxa de complicações graves abaixo de 1% em centros experientes.
Aplicação de choque elétrico sincronizado para reverter arritmias como FA ou flutter atrial para ritmo sinusal normal. Pode ser eletiva (programada) ou de emergência.
Dispositivo implantável que monitora o ritmo cardíaco e estimula o coração quando detecta pausa ou bradicardia. Indicado para bloqueios atrioventriculares graves, disfunção do nó sinusal e outras bradiarritmias.
O CDI é uma espécie de "guarda-costas" elétrico implantado sob a pele. Monitora continuamente o ritmo cardíaco e, ao detectar uma fibrilação ventricular ou taquicardia ventricular grave, aplica automaticamente um choque para reverter a arritmia. Salva vidas em pacientes com alto risco de morte súbita.
A prevenção das arritmias passa principalmente pelo controle dos fatores de risco cardiovascular:
Controle da pressão arterial: hipertensão não controlada é um dos principais fatores de risco para fibrilação atrial e outras arritmias. Meta: abaixo de 130/80 mmHg.
Controle do diabetes e da glicemia: a neuropatia autonômica diabética compromete o ritmo cardíaco. HbA1c abaixo de 7% é o objetivo.
Manutenção do peso adequado: a obesidade aumenta significativamente o risco de fibrilação atrial — cada 5 pontos de IMC aumentam o risco em até 29%.
Controle do colesterol e dos triglicerídeos: dislipidemia favorece a aterosclerose que pode causar isquemia e arritmias secundárias.
Não fumar: o tabagismo aumenta o risco de arritmias e doença coronariana. O benefício da cessação é imediato.
Moderação com álcool: o consumo excessivo agudo ("holiday heart") pode desencadear fibrilação atrial mesmo em pessoas saudáveis. O consumo crônico leva a cardiomiopatia alcoólica.
Sono adequado e tratamento da apneia: a apneia do sono não tratada aumenta em até 2 vezes o risco de fibrilação atrial. O CPAP noturno reduz esse risco.
Exercício físico regular — mas com equilíbrio: atividade física moderada protege o coração. O excesso — especialmente em atletas de alto desempenho — pode paradoxalmente aumentar o risco de certas arritmias (FA do atleta). Avaliação cardiológica antes de iniciar programas intensos é recomendada.
Depende do tipo. Extrassístoles benignas geralmente não precisam de tratamento e diminuem com controle dos gatilhos. A TSVP tem taxa de cura acima de 95% com ablação por cateter. A fibrilação atrial pode ser controlada eficazmente com medicação ou tratada com ablação — com taxas de manutenção do ritmo sinusal de 60–80% após um único procedimento. Arritmias secundárias (causadas por hipertireoidismo, por exemplo) frequentemente resolvem com o tratamento da causa base.
Não. Palpitação é um sintoma — a percepção anormal do próprio batimento cardíaco. Pode ocorrer em ritmo completamente normal (em momentos de ansiedade, por exemplo), em extrassístoles benignas, ou em arritmias verdadeiras. A investigação com ECG e Holter é o que diferencia.
Depende totalmente do tipo de arritmia. Extrassístoles benignas geralmente não contra-indicam exercício. FA controlada permite atividade moderada. Taquicardia ventricular em paciente com doença cardíaca é uma contraindicação relativa ou absoluta dependendo do contexto. Sempre avalie com cardiologista antes de intensificar a atividade física.
Para a maioria das pessoas, o consumo moderado de cafeína (até 400 mg/dia — equivalente a 3–4 xícaras de café) não causa arritmias clinicamente significativas em pessoas sem doença cardíaca. Mas em pacientes sensíveis — especialmente os com extrassístoles frequentes — a redução ou eliminação da cafeína pode reduzir os episódios. Para pacientes com FA, a evidência é mais controversa: alguns estudos sugerem que cafeína moderada pode até ser protetora.
Morte súbita cardíaca é a parada cardíaca inesperada causada, na maioria dos casos, por fibrilação ventricular. Ocorre mais frequentemente em pessoas com doença coronariana pré-existente (muitas vezes não diagnosticada), mas pode acontecer em jovens com cardiopatias congênitas ou genéticas.
A prevenção inclui: check-up cardiológico regular, controle de fatores de risco, avaliação pré-participação esportiva em jovens, aprendizado de RCP pela população e ampliação do acesso a desfibriladores automáticos em espaços públicos.
A ansiedade pode desencadear extrassístoles e taquicardia sinusal — ambas benignas. O estresse crônico e a ansiedade também estão associados a maior risco de FA a longo prazo. Mas é importante distinguir: ansiedade não causa fibrilação ventricular ou taquicardia ventricular em pessoas sem doença cardíaca. Quando há dúvida, investigar primeiro e tranquilizar depois — com exames que confirmem que o coração está estruturalmente saudável.
Não significativas para a maioria. Pacientes com marca-passo podem fazer exercício físico moderado, viajar de avião, ter vida sexual normal e trabalhar normalmente. Algumas precauções existem com campos eletromagnéticos muito intensos (como ressonância magnética — hoje possível com modelos compatíveis) e aparelhos de solda elétrica. O cardiologista e o fabricante do dispositivo orientam especificamente cada caso.
A arritmia cardíaca é um espectro amplo. Na maioria das vezes, as palpitações que você sente são benignas e não precisam de tratamento além do controle de hábitos. Mas em alguns casos — e esses casos existem —, uma arritmia não investigada pode levar ao AVC, à insuficiência cardíaca ou à morte súbita.
A diferença entre uma situação e outra não é possível determinar sem avaliação médica e exames.
A mensagem central é simples: se você sente palpitações com frequência, se tem fatores de risco cardiovascular ou histórico familiar de doença cardíaca — marque uma consulta com cardiologista. Não para se alarmar, mas para entender o que está acontecendo com o seu coração e ter a tranquilidade de saber que ele está sendo cuidado.
Prevenção é sempre mais simples — e mais barata — do que tratamento de emergência.
Pacientes com arritmia cardíaca — especialmente fibrilação atrial — precisam de acompanhamento contínuo e rigoroso: ajuste de anticoagulação, monitoramento de frequência cardíaca, controle dos fatores de risco e comunicação ativa com o médico.
Clínicas de cardiologia que organizam bem esse fluxo obtêm resultados clínicos superiores — e reduzem significativamente o risco de eventos graves como AVC e morte súbita.
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Este artigo foi elaborado com base nas diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), dados da SOBRAC (Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas), recomendações da Mayo Clinic, estudos do ELSA-Brasil (Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto) e literatura científica revisada por pares atualizada até 2026. As informações têm caráter educativo e não substituem a avaliação cardiológica individualizada.
Por SalusNexus